Quando pensamos em mudança de hábitos, é muito comum cair no pensamento do tudo ou nada. Ou a alimentação está perfeita, ou parece que todo o esforço foi perdido. Ou a pessoa consegue treinar todos os dias, ou acredita que não vale a pena fazer exercício algum. Ou elimina completamente determinado alimento, ou sente que está “sem controle”.
Esse tipo de pensamento é conhecido como pensamento dicotômico. Ele divide as situações entre dois extremos e praticamente apaga todas as possibilidades que existem no meio do caminho. Na alimentação, isso pode dificultar bastante a construção de hábitos que realmente sejam possíveis de manter.
O problema do tudo ou nada
Imagine que você decidiu melhorar sua alimentação e estabeleceu que vai preparar todas as refeições em casa durante a semana. Na quarta-feira, a rotina fica mais corrida e você precisa pedir comida. Se o pensamento for rígido, pode surgir rapidamente a sensação de que “já estragou tudo”.
Mas será que uma refeição diferente realmente apaga todas as escolhas anteriores?
É justamente aí que o pensamento do 8 ou 80 pode atrapalhar. Quando qualquer desvio do plano é interpretado como fracasso, fica muito mais fácil abandonar todo o processo.
Uma alimentação saudável não é construída a partir de uma sequência perfeita de dias. Ela é construída pela capacidade de fazer boas escolhas na maior parte do tempo e continuar mesmo quando a rotina não acontece exatamente como planejado.
O caminho do meio também é progresso
Muita gente acredita que mudanças pequenas não são suficientes para produzir resultados. Por isso, tenta modificar tudo de uma vez: cortar vários alimentos, beber uma quantidade de água muito maior de um dia para o outro, iniciar uma rotina intensa de exercícios e transformar completamente os horários das refeições.
O problema é que mudanças muito distantes da realidade costumam ser difíceis de sustentar.
Talvez você ainda não consiga incluir legumes no almoço e no jantar todos os dias, mas pode começar acrescentando em algumas refeições. Talvez ainda não beba a quantidade de água que gostaria, mas pode aumentar aos poucos. Talvez uma hora de exercício não caiba na sua rotina, mas vinte ou trinta minutos sejam possíveis.
Essas alternativas não são menos importantes apenas porque parecem pequenas. Muitas vezes, são justamente elas que criam a base para mudanças maiores no futuro.
Uma escolha não determina todo o processo
O pensamento dicotômico também aparece muito depois de refeições diferentes. A pessoa come um doce e pensa que “saiu da dieta”. Depois disso, acredita que não existe mais motivo para continuar fazendo escolhas equilibradas naquele dia.
É o famoso pensamento: “já que comi isso, agora tanto faz”.
Mas não precisa ser assim.
Você pode comer uma sobremesa e depois seguir normalmente com a sua rotina. Pode sair para jantar e tomar café da manhã no dia seguinte sem precisar compensar. Pode passar alguns dias sem fazer atividade física e simplesmente voltar quando for possível.
Uma escolha não precisa determinar todas as escolhas seguintes.
Flexibilidade ajuda a manter hábitos por mais tempo
Ser flexível não significa abandonar objetivos ou deixar de cuidar da alimentação. Significa entender que a vida não acontece de maneira perfeitamente organizada todos os dias.
Existem viagens, aniversários, compromissos inesperados, períodos de maior cansaço e dias em que simplesmente não conseguimos fazer aquilo que planejamos. Uma rotina alimentar sustentável precisa ser capaz de conviver com tudo isso.
Quando o planejamento é rígido demais, qualquer imprevisto parece um problema. Quando existe flexibilidade, conseguimos adaptar.
E essa capacidade de adaptação é uma parte importante da construção de hábitos duradouros.
Não espere conseguir fazer tudo para começar
Outro efeito do pensamento tudo ou nada é a paralisação. Algumas pessoas adiam mudanças porque acreditam que ainda não têm tempo, dinheiro, organização ou motivação suficiente para fazer tudo aquilo que imaginam ser necessário.
Mas você não precisa ter todas as condições ideais para começar.
Comece com aquilo que é possível hoje. Escolha uma refeição para melhorar. Inclua uma fruta a mais na rotina. Beba mais um copo de água. Faça uma caminhada curta. Organize o café da manhã do dia seguinte.
Depois, conforme esses hábitos se tornam mais naturais, você pode avançar.
O cuidado não precisa começar perfeito. Ele só precisa começar.
Pequenas conquistas também precisam ser reconhecidas
Quando o objetivo final parece distante, podemos esquecer de observar o caminho percorrido.
Talvez você ainda não tenha alcançado exatamente aquilo que deseja, mas passou a comer com mais regularidade. Talvez tenha começado a perceber melhor sua saciedade. Talvez esteja consumindo mais frutas e verduras ou tenha diminuído a culpa depois de comer algo diferente.
Essas mudanças também são resultados.
Reconhecer pequenas conquistas não significa se acomodar. Significa perceber que existe evolução acontecendo enquanto você continua trabalhando em direção aos seus objetivos.
Nem 8 nem 80
Uma relação saudável com a alimentação não precisa existir nos extremos. Há muito espaço entre fazer tudo perfeitamente e não fazer absolutamente nada.
É nesse espaço que encontramos adaptação, aprendizado, equilíbrio e constância.
Por isso, quando perceber que está pensando “ou faço tudo ou não faço nada”, tente se perguntar: o que é possível fazer agora?
Talvez a resposta seja menor do que você gostaria. Ainda assim, ela pode representar um passo importante.
Você não precisa transformar sua vida de uma vez. Faça aquilo que consegue hoje, ajuste quando necessário e permita que o processo melhore com o tempo. Uma mudança sustentável costuma ser construída exatamente assim: um passo possível depois do outro.

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